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Marcus Coltro 2 on 23/5/2013
Thanks Randy!

Randy Allamand on 23/5/2013
Great article Marcus! You are a very good writer! I really enjoyed the part about the dream with the lady & the live shells lol! Those are the best dreams!




Kiritimati por Marcus Coltro
 

Já ouviu falar de Kiritimati? É um atol no meio do oceano Pacífico, também conhecido como Ilhas Christmas (não confundir com a ilha de mesmo nome no oceano Índico), e faz parte da República do Kiribati, 2 mil km ao sul do Havaí. É o maior atol coralino do mundo, com 640 km² . Os ingleses fizeram testes nucleares lá no fim dos anos 50 e os americanos fizeram em 1962 (mas não encontrei nenhuma concha fosforescente)

Em sua língua local, Gilbertês, a sílaba "ti" soa como "ss" então Kiritimati vira Kirissmass = Christmas! É o primeiro local no mundo onde o sol nasce primeiro em cada dia, e está na mesma longitude que o Havai - só que lá o horário é do dia anterior. Quando saí de Honolulu era terça-feira à tarde e após 3 horas cheguei em Kiritimati na quarta-feira do dia seguinte, perdi um dia. Na volta saí de Kiritimati em uma quarta-feira de manhã e cheguei em Honolulu no dia anterior, terça-feira - viagem no tempo!

Por que escolhi Kiribati? Me pareceu um local interessante já que há poucas conchas vindas de lá estão em coleções particulares (você tem alguma?). Também estranhei o fato de Bunnie Cook nunca ter ido coletar lá, sendo que ela viajou o mundo todo e Kiribati fica relativamente perto de Honolulu.

Para chegar lá há a opção de sair de Fiji ou de Honolulu, voos operados pela Air Pacific chegando somente às quartas-feiras. A maior parte (se não o total) dos turistas vão para pescar nas lagoas internas. Quando procurei informações sobre viagens para lá, encontrei sites especializados em pacotes de pesca. Na descrição da ilha há uma seção de dicas onde se lê "Coisas para se fazer na ilha caso não vá pescar: nada, nem vá". Bom, eu era certamente o único do avião que não carregava equipamento de pesca.

O primeiro passo antes de viajar foi conseguir uma autorização para coletar conchas - sempre um processo burocrático e demorado, mas finalmente consegui. O voo de Honolulu levou três hora e chegamos ao aeroporto Internacional de Cassidy. Acho que meu escritório é maior que o aeroporto... No mesmo voo vieram alguns latino-americanos e eu reconheci o sotaque - eram equatorianos recrutados por barcos de pesca de atum que ancoram na ilha para abastecer.

Depois de passar pela alfândega (e ganhando um carimbo novo no passaporte) saí para procurar o transporte do Hotel Captain Cook. Havia uma "van" esperando, com dois turistas americanos que estavam de visita para... pescar, claro. A "van" na realidade era uma caminhonete adaptada para carregar passageiros na caçamba.

A economia da ilha é baseada em exportação de "copra", polpa de coco desidratada, tem aproximadamente 9 mil habitantes, as estradas são meio antigas e esburacadas (bom, só tem uma estrada). Levamos alguns minutos para chegar ao hotel, que era de frente para a praia (claro, onde mais ficaria em um atol?). Eu cheguei e nem estava muito preocupado em olhar o quarto, fui direto olhar a praia. Não era o lugar mais adequado para fazer snorkel, com as ondas arrebentando na praia.

O quarto era razoavelmente bom, duas camas, tudo limpo, com uma pequena geladeira e ar condicionado. A única coisa que não me agradou muito foi que não tinha água quente - sim, gosto de tomar banho quente mesmo em locais quentes - tente fazer snorkel por 5 ou 6 horas e depois tomar um banho gelado! Mas tudo bem, estava ansioso demais para esquentar a cabeça. Apesar de tudo estar limpo, eu sempre gosto de usar inseticida no quarto, um tipo que é colocado no meio do ambiente e assim que o lacre é quebrado todo o conteúdo é espirrado. Basta deixar o quarto fechado por duas horas que estará dedetizado por meses contra baratas e outros insetos rasteiros.

Após me instalar já estava na hora do jantar, então fui me encontrar com "todos" os outros três hóspedes do hotel. John (que organiza viagens de pesca), Bill e Craig (os dois americanos que chegaram comigo no avião) e Kent, um médico voluntário que todos os anos vem à ilha para ajudar na clinica local. Eu não estava esperando comer fartas refeições (só tem o restaurante do hotel, mais nada perto) e seria uma boa oportunidade de perder algum peso. Me enganei de longe, a comida era muito boa e não perdi um grama. Ao conversar com meus novos amigos, aproveitei para aprender algumas dicas para me virar na ilha. Eu precisava ir para a capital, Londres, para mergulhar (nunca pensei em escrever essa frase) e não fazia idéia de como chegar lá, já que o único carro de aluguel do hotel já estava ocupado. Eles tem um ônibus na ilha, mas me disseram que não dava para confiar nos horários e eu poderia ficar esperando por horas. Então Kent ofereceu uma carona no carro da clínica que viria busca-lo na manhã seguinte. Eu também queria tentar ir mergulhar em Paris, mas as estradas estavam inundadas e seria difícil passar - pois é, além de Londres tem Paris (com uma estrada que liga as duas!), Polônia e Tennessee (vai entender essa última).

Na manhã seguinte o motorista veio nos buscar. Já que a ilha havia sido colonizada por ingleses, eles usam o lado esquerdo da estrada - na realidade não usam lado nenhum, só ficam desviando dos buracos. Perguntei ao motorista qual era a distância do hotel até Londres, ao que me respondeu "30 minutos". Eu insisti, mas quantos quilômetros? "Eu só sei por tempo". Eu olhei no Google Maps e vi que era mais ou menos 20km.

Ao chegar na clínica, o Ken me deixou usar o toalete para me trocar e deixar minhas coisas enquanto estivesse mergulhando. Como a companhia aérea me deu um limite ridículo de peso para carregar, não pude trazer nem poucas peças de lastro comigo. Eu levei um cinto de lona com zíper, que é para ser usado com saquinhos de chumbo granulado, e coloquei no lugar sacos zip cheios de areia e pedrinhas da praia (sim, sou um gênio modesto). A água estava meio turva e o fundo era de areia com poucos lugares com pequenas pedras e algas. Os únicos lugares que conchas e outros animais poderiam se esconder seriam aglomerados de cabos elétricos antigos e uma tubulação de óleo abandonada, toda destruída. Meio frustrante, poucas conchas, tipo Cypraea moneta, Conus pulicarius e lividus, Terebra maculata, Nerita plicata e algumas espécies pequenas. E sem sinal de tubarões, apesar dos alertas dos habitantes locais antes de eu entrar na água. Depois de cinco horas mergulhando voltei para a clínica para pegar uma carona para o hotel.

Perguntei ao Ken se ele sabia porque não haviam corais em Londres, já que era bem perto da abertura do atol, ele disse que os ingleses dragaram o interior para facilitar a entrada de navios e isso destruiu tudo, o lugar nunca se recuperou. O único lugar que estava preservado era uma pequena ilha na entrada do atol, Ilha Cook, mas é um santuário. No lado oposto de Londres fica Paris - e pelo que vi nas imagens do satélite seria a mesma coisa que Londres (também nunca pensei em escrever que Londres é igual a Paris), então a alternativa seria mergulhar em frente ao hotel.

Levantei cedo e fui caminhar na praia para checar se haviam conchas interessantes na areia, e procurar um local adequado para mergulhar. Ouvi dizer que no passado foram encontrados exemplares mortos do raro Conus adamsoni. Uma mulher local estava se aproximando com uma sacola plástica nas mãos. Ela me perguntou o que eu estava fazendo, e ao explicar que estava procurando conchas, me mostrou o que estava no saco: um monte de conchas fantásticas, incluindo alguns Conus adamsoni frescos! Eu estava tão excitado que não podia acreditar naquilo - até eu olhar novamente para ela e perceber que havia se tornado a Gisele Bundchen....então eu acordei sem nada, droga!

Na vida real, andei dois quilometros até chegar a um local onde a faixa entre a arrebentação e a praia era um pouco mais larga e as ondas não pareciam ser tão fortes. Foi difícil caminhar na areia fofa com pedaços de coral, carregando todo o equipamento. Encontrei um espaço entre a vegetação onde poderia me trocar e deixar minha roupa seca, a água e uns biscoitos que levei (meu almoço). Na realidade poderia deixar no meio da praia, já que não havia uma viva alma em toda a praia, provavelmente em todo aquele lado do atol. E eu com certeza seria a única pessoa mergulhando, de acordo com o que a atendente do hotel me perguntou antes de eu sair "você vai mergulhar lá com todos aqueles tubarões?". Eu não tive problemas com tubarões, mas em compensação com as ondas e a correnteza foram terríveis. Provavelmente foi um dos mergulhos mais difíceis que já mergulhei - e o motivo de a Bunnie Cook nunca ter vindo coletar aqui mesmo sendo tão perto do Havaí.

Eu tinha que agarrar firmemente alguma coisa, pedra, coral ou enfiar minha faca no chão para poder ficar no lugar e não ser carregado para longe. Até os peixes tinham que lutar contra a correnteza. Pelo menos encontrei muito mais conchas, e havia um fundo tropical com corais e peixes coloridos. Achei Cypraea depressa, poraria, moneta (grandes), alguns Conus, Thais armigera grande, alguns raros Latirus amplustre, Bursa bufonia e várias espécies pequenas. Vi diversas Tridacnas coloridas - que obviamente só tirei fotos. Aliás, até para tirar fotos era difícil já que eu não podia largar minha "ancoragem" por muito tempo. Claro que tirei fotos, mas ralei a câmera inteira.

Como a Lei de Murphy manda, as melhores conchas ficavam perto da arrebentação, onde as ondas eram grandes e a correnteza incrivelmente forte. Em um momento quase que a máscara saiu de meu rosto - e ainda bem que decidi usar minha roupa de neoprene de 1mm ao invés da roupa de mergulho de tecido. Uma onda me jogou contra os corais e quase rasgou o neoprene. Se fosse a de tecido teria rasgado minha perna ao invés do neoprene e digamos que não seria uma boa coisa de acontecer sendo que eu havia visto alguns tubarões na parte mais funda. Pelo menos encontrei uns Turbo argyrostomus grandes, Cypraea caputserpentis (só encontrei lá), Cypraea depressa escuras e outras conchas. Eu cheguei a me aproximar mais da parte mais funda, mas a corrente piorava mais e eu não estava muito a fim de voltar para Honolulu pelo mar.

Depois de 6 horas mergulhando eu saí, muito mais satisfeito que no dia anterior. Mas precisava encontrar alternativas para os dias seguintes. Ao chegar ao hotel no entardecer, antes de entrar no quarto eu sentei na praia para apreciar o por do sol - fiz isso todos os dias da viagem. Esta mudança de rotina é o que abastece meu espírito, sair de uma cidade de mais de vinte milhões de habitantes para uma praia deserta! Me esforço para manter aqueles momentos na memória para relembrar em dias estressantes no escritório, ou quem sabe me teletransportar de volta quando tiver superpoderes no futuro. Posso nunca ficar rico vendendo conchas, mas a experiência de vida, lugares e pessoas que conheço em viagens compensam quaisquer problemas que possa ter. E paraísos como esse me fazem apreciar mais estar vivo.

Tomei um banho rápido e fui examinar os meus achados. Aí fui jantar com o pessoal - eles também estavam exaltantes com o resultado da pesca do dia. Me explicaram como funcionava o esquema deles: vão para um local do atol onde ficam com água um pouco acima dos joelhos, cada um paga por um guia que fica à frente deles e os alerta a direção que devem jogar o anzol, tipo "10 metros às 2 horas" - se referindo à direção que devem arremessar. Eles somente podem tirar fotos dos peixes, devem cuidadosamente retirar o anzol e colocar o peixe de volta na água, tendo certeza de que ele sairá nadando. Após a conversa o jantar chegou, sashimi de atum fresco e lagostas!

No dia seguinte fui caminhar para o interior do atol para procurar terrestres, em direção à uma lagoa pertencente ao hotel chamada Bathing Lagoon (lagoa de banho). No primeiro dia eu havia passado de carro por lá com o Kent, que foi examinar algumas colmeias de abelha que ele estava criando no local - ele está ensinando alguns moradores a criar abelhas para produzir mel comercialmente. Eu sabia que seria uma caminhada longa, mais ou menos 3km em uma estrada deserta de areia - me disseram para tomar cuidado e não me desviar do caminho entrando em um emaranhado de estradas (todas parecem iguais). Mas como sou muito esperto, extremamente inteligente e com excelente memória (tudo mentira) eu nem me preocupei em olhar o mapa, confiando que lembraria o caminho que fiz com o Kent. A estrada estava meio alagada em alguns pontos devido à tempestade da noite anterior, mas dava para passar à pé. Não encontrei nem sinal de terrestres, e percebi que seria impossível encontrar qualquer coisa devido à quantidade de diversas espécies de caranguejos de terra, que provavelmente comeriam qualquer coisa que encontrassem. Continuei andando em direção à lagoa de qualquer forma - e é claro que virei para o lado errado em um ponto, me afastando da lagoa ao invés de chegar lá. Antes que me perdesse e virasse um náufrago perdido, voltei para o caminho principal e para o hotel, e fui mergulhar de novo no mesmo local do dia anterior.

Tentei ir um pouco mais distante e achei outro ponto que parecia bom para arriscar mergulhar. A diferença é que o fundo não tinha corais, mas um tipo de alga calcárea cobrindo tudo. Olhei mais de perto e percebi que o fundo era na realidade uma colônia gigante de mariscos cobertos pela alga calcárea. Depois de uns minutos sem encontrar nada - e com a corrente ficando forte, movi em direção ao local do dia anterior e fiquei por lá umas quatro horas.

O hotel tem um bloco principal de quartos onde ficam o lobby, restaurante, bar e sala de TV, e vários bangalôs espalhados pela propriedade. Eu fiquei no bloco principal, mais fácil para chegar ao restaurante e mais perto da antena de wi-fi da internet (sim, e funcionava!). Alguns dias na volta do mergulho eu ficava sentado no lobby para esperar até que o pessoal voltasse da pesca. Uma tarde havia um grupo de equatorianos conversando e tomando cervejas - eu os cumprimentei em espanhol e eles ficaram surpresos. Contei que viajei diversas vezes para o Equador e me convidaram para tomar uns drinques com eles. Eles eram a tripulação de um dos navios pesqueiros de atum e iriam embarcar no dia seguinte, para ficar por dois anos embarcados. Vida bem dura, me contaram que o mar é muito grosso lá fora, que as ondas cobriam o barco nos piores dias, tipo aquele seriado do canal Discovery, Pesca Mortal. E eu choramingando que o mar estava ruim para fazer snorkel... depois de tomar algumas (muitas) fui jantar com o pessoal que havia voltado da pesca e fui dormir.

Ainda tinha dois dias para coletar, e a melhor opção ainda era a praia perto do hotel - tentei ir para a direção oposta, mas o mar era pior. Também cogitei em fazer um mergulho noturno, mas somando o fato de que eu me esgotava durante o dia mais a distância que teria que caminhar no escuro total, eu acabei desistindo - acho que estou ficando velho...

Vi várias espécies roladas na praia que não encontrei mergulhando - com certeza vinham detrás do recife de fora. Para fazer uma coleta apropriada eu teria que alugar um barco com tanques de mergulho (seria bom se o Tony McCleery não tivesse vendido seu veleiro), e precisaria ficar mais tempo, uma semana só não dá para fazer nada.

O vôo de volta para Honolulu seria na manhã de quarta-feira, e o hotel nos levaria ao aeroporto 3 horas antes para que pudessem revistar todas as malas (procurando o quê, eu não sei)

Posso dizer que para coletar, Kiritimati não é para fracos esperando conforto em hotel de luxo e mergulho em lagoas paradisíacas. Eu felizmente consegui encontrar algum material interessante - sem me arrebentar (muito), e ainda por cima coloquei um alfinete novo no mapa mundi do escritório!

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